ESTADÃO | Panorama 2026: Novo filme de Murilo Salles abre festival na Bahia

27/03/2026

SALVADOR – Como seus congêneres, a Mostra Panorama Internacional Coisa de Cinema, de Salvador, procura contemplar tanto a produção brasileira atual como o interesse dos cinéfilos pela história e novidades internacionais da arte a que se dedicam. A primeira distribui-se nas diversas mostras competitivas, em particular a nacional e a local. O segundo traz alguns filmes isolados, já celebrados pela tradição cinematográfica, e algumas mostras dedicadas a nomes especiais – como são os casos da cubana Sara Gomes e da belgo-francesa Agnès Varda.

O conjunto compõe uma maratona compacta de mais de uma centena de filmes a serem exibidos – e alguns deles discutidos – em alguns cinemas da capital baiana e no município de Cachoeira, no Recôncavo Baiano.

Na capital, a mostra ocupa o mitológico Cine Gláuber Rocha, defronte à estátua de Castro Alves e da Baía de Todos os Santos. A sala alternativa, esta no bairro de Barris, leva o nome do mais famoso crítico de cinema baiano, Walter da Silveira.

A mostra começou oficialmente nesta quarta-feira com a exibição de A Vida de Cada Um, que o cineasta Murilo Salles adaptou do romance policial Na Multidão, de Luiz-Alfredo Garcia Roza. O filme registra a formação de milícias e o relacionamento entre o Estado e a bandidagem no Rio de Janeiro. O faz através da família disfuncional formada por um policial violento e corrupto Domingos Macedo (Caco Ciocler) e sua filha, Flávia (Bianca Comparato, na fase adulta). O enredo distribui-se ao longo do tempo, em três fases em particular, acompanhando o crescimento da menina – infância, adolescência e idade adulta – e sua crescente proximidade com a órbita do crime frequentada pelo pai. O retrato de Brasil que sai dessa história não parece nada animador. Reflete, de certa forma, o mood de todos nós com o atual estado das coisas no país e no mundo.

Por outro lado, a primeira concorrente da mostra baiana, Afrolatinas: Mulheres Negras em Movimentos, de Viviane Ferreira, traz à vista uma história de luta, inglória, difícil, de resultados ainda parciais, porém efetivos. Um marco: 1992 na República Dominicana, quando foi instituído o Dia da Mulher Afro Latino-americana e Caribenha, demarcando uma especificidade, tanto de opressão quanto de resistência, na luta global contra o racismo.

Nas marcas históricas da arte cinematográfica, duas mulheres são colocadas em destaque pelo Panorama de Cinema: as cineastas Sara Gomez, de Cuba, e Agnès Varda, da França. Do Caribe ao centro internacional da cinefilia, chegam amostras de obras de duas mulheres fortes, originais e com assinatura própria. No mundo da cinefilia há muito Agnès é celebrada como expoente do exercício cinematográfico, em geral sob a forma documental, mas com incursões sólidas pela ficção, como Os Renegados ou Cléo das 5 às 7; a hora é de redescobrir Sara Gomez.

Entre os filmes restaurados a serem exibidos, há várias atrações que podem ser adjetivadas de “imperdíveis” sem qualquer exagero de expressão. A começar pelo Arnaldo Jabor de Eu Te Amo, ou a incursão de Leon Hirszman pela Zona Sul com Garota de Ipanema, assim como o thriller policial de Roberto Pires, Máscara da Traição, e o recentemente incensado por entendidos Um é Pouco, Dois é Bom, de Odilon Lopez.

De pré-estreias internacionais, dois filés: Fernão de Magalhães, novo trabalho do filipino Lav Diaz, longa de 160 minutos, modesto para seus padrões; e In-I Motion, documentário de Juliette Binoche sobre o processo de criação de um espetáculo feito em parceria com Khan.

Na parte reflexiva, continua a rolar um importante seminário sobre exibição, reunindo programadores de cinemas de várias partes do país. Em tempo de streaming, não há desafio maior do que fazer bons filmes chegarem ao seu público potencial nas salas de cinema. O Panorama, que chega à sua 21ª edição, segue até o dia 1º de abril.

Programação

COMPETIÇÃO BAIANA:

. “Anti-Heróis do Udigrudi Baiano”, de Henrique Dantas

. “Afrolatinas: Mulheres Negras em Movimento”, de Viviane Ferreira (doc, 92?)

. “Cartas Para…”, de Vânia Lima (doc, 89?)

. “Timidez”, de Susan Kalik e Thiago Gomes Rosa (fic, 83?)

. “Xingu à Margem”, de Wallace Nogueira e Arlete Juruna (doc-drama, 96?)

. “FeiraGuay”, de Francisco Gabriel Rego (doc, 67?)

. “Sambadores”, de Pola Ribeiro (doc, 71?)

. “Terra Batida”, de Jon Lewis (doc, 77?)

. COMPETIÇÃO NACIONAL:

. “Cais”, de Safira Moreira (Bahia)

. “Até Onde a Vista Alcança”, de Alice Villela e Hidalgo Romero (SP)

. “Dolores”, de Maria Clara Escobar e Marcelo Gomes (SP)

. “Para Vigo me Voy”, de Karen Harley e Lírio Ferreira (RJ)

. “Uma Baleia Pode Ser Dilacerada Como Uma Escola de Samba”, de Marina Meliante e Felipe M. Bragança (RJ)

. “Espelho Cigano”, de João Borges (MG)

. “Malaika”, de André Morais (PB)

“Morte e Vida Madalena”, de Guto Parente (CE)

. COMPETIÇÃO INTERNACIONAL: 

. “Aisha Não Pode Voar”, de Morad Mostafa (Egito, ficção, 120?)

. “Coração Impaciente”, de Lauro Cress (Alemanha, ficção, 104?)

. “Deus Não Vai Ajudar”, de Hanac Jusic (Croácia, ficção, 137?)

. “Frutos do Cacto”, de Rohan Parashuram Kanawabe (Índia, ficção, 114?)

. “Linha Verde”, de Sylvie Ballyot (França, Líbano, doc, 120?)

. “Militantropos”, de Smith, Gorlova & Mozgovyi (Ucrânia, doc., 11?)

. MOSTRA DE FILMES RESTAURADOS:

. “Máscara da Traição”, de Roberto Pires (1969)

. “A Lenda de Ubirajara”, de André Luiz Oliveira (‘975)

. “Meteorango Kid, o Herói Intergalático”, de André Luiz Oliveira (1969)

. “A Mulher de Todos”, de Rogério Sganzerla (1969)

. “Garota de Ipanema”, de Leon Hirszman (1967)

. “Eles Não Usam Black-Tie”, de Leon Hirszman (1982)

. “Um é Pouco, Dois é Bom”, de Odilon Lopes (1970)

. “Eu Te Amo”, de Arnaldo Jabor (1984)

. “Xica da Silva”, de Cacá Diegues (1976)

. PANORAMA BRASIL:

. “Nimuendajú”, de Tânia Anaya (animação, MG)

. “Copacabana, 4 de Maio”, de Allan Ribeiro (RJ)

. “Kaabok: O Candomblé de Caboclo no Sertão de Jequié”, de Zaire Ominira e Adriana Fernandes Carajá (Bahia)

. “For do Sertão”, de Taís Laila e Bruno Masi (Bahia)

. “Um Carnaval em Cada Esquina”, de Vânia Lima (Bahia)

. SEIS FILMES DE AGNES VARDA:

. “A Ponte Curta”

. “As Cento e Uma Noites”

. “Jane B. Por Agnès V.”

. “Kung-Fu Master”

. “As Criaturas”

. “Os Renegados” (vencedor de Veneza)

. MOSTRA SARA GOMEZ:

. “De Cierta Manera” (longa-metragem, 1974)

. Curtas e médias: “Ano Um”, “Cuidados Pré-Natais”, “E … Nós temos Sabor”, “Eu Vou Para Santiago”, “Excursão a Vueltabajo”, “Guanabacoa: Crônicas de Minha família”, “Ilha do Tesouro”, “Minha Contribuição”, “Na Outra ilha”, “Nos Bateyes”, “Poder Local, Poder Popular”, “Sobre Horas Extras e Trabalho Voluntário”, “Um Documentário Sobre o Trânsito” e “Uma Ilha Para Miguel”.

. PANORAMA INFANTIL:

. “Papaya”, de Priscilla Kellen (SP)

. “Ayô”, série de Yasmin Thayná (RJ)

. Projeto “O Cinema Vai à Escola” Ano 17