PLANO B | Kátia Morais: “Onde não há salas, o VoD consegue chegar”
02/04/2026
Finalizou no último domingo, 29 de março, o II Seminário de Exibição, parte da Panorama Internacional Coisa de Cinema. Como o nome diz, o evento discutiu, principalmente, questões ligadas à ponta da cadeia, às salas de cinema, mas, como tudo no setor se conecta, foram discutidas também outras importantes demandas do audiovisual.
Num dos debates levantados, Nilson Rodrigues alegou que há políticas públicas para as minorias para a produção, em que se favorecem parcelas minorizadas da população, mas o mesmo olhar não é direcionado para a exibição: “quantos negros estão indo ao cinema?”, questionou o exibidor, diretor do Cine Cultura Liberty Mall, em Brasília.
Em outro, Paulo Alcoforado disse que, dos dois Projetos de Lei sobre regulação do VoDque foram redigidos, o que está na Câmara é “muito menos nocivo” do que o que está no Senado, pois, entre outros pontos, o do Senado relativiza o conceito de produtora brasileira, possibilitando, por exemplo, que uma empresa estrangeira que contrate uma produtora brasileira seja classificada como brasileira, isentando-se de taxas. Além disso, explicou: “no do Senado, foi aprovado um trecho que desobriga o serviço de streaming a pagar a Condecine Remessa, enquanto no da Câmara, essa taxa foi mantida”.
Cinema público e cinema privado ou cinema público VS cinema privado?
Enquanto alguns exibidores privados reclamaram de cinemas públicos que abriram muito perto dos seus complexos, atrapalhando seus negócios, outros argumentaram que um não rivaliza com o outro, principalmente se localizados em pontos estratégicos da cidade.
Uma exibidora que gerencia um cinema público em Curitiba pediu a palavra na plateia para dizer que “alegar que o cinema público vai acabar com o privado é como argumentar que o SUS vai falir o sistema de saúde no Brasil. Prestamos um serviço público, precisamos ser respeitados”, defendeu. A fala vai ao encontro do que defendeu Alfredo Manevy em outra mesa.
Nilson Rodrigues respondeu dizendo que sim, “tem que ter cinema público. Mas não pode concorrer com o privado. Se o governo me dá subsídios mas abre um cinema do meu lado [provavelmente referindo-se ao Cine Brasília, a 7 minutos de carro de seu cinema], me quebra no meio”.
“Onde não há salas de cinema, o VoD consegue chegar”
Katia Morais, doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas, professora e pesquisadora da UNEB, participou de uma mesa sobre VoD e salas de cinema junto com o diretor da Ancine Paulo Alcoforado e a deputada estadual da Bahia Olivia Santana (PC do B).
Nela, a pesquisadora fez coro com Alcoforado, que defende a ampliação do parque exibidor, balizando sua tese da seguinte forma: “onde não há salas de cinema, o VoD consegue chegar. Esse, inclusive, é um argumento importante das plataformas para a defesa da ausência de janela, que, segundo elas, só exclui ainda mais esses lugares, atrasando o acesso de seus respectivos habitantes ao filme que o resto da população brasileira tem acesso muito antes.
De acordo com o último levantamento feito em parceria pela Ancine e pelo IBGE, em 2019, são cerca de 5 mil a 5,1 mil municípios sem cinema no Brasil, o que, se falando em quantidade de municípios, representa 90% a 93% do total. Já em termos de habitantes, são aproximadamente 84 a 90 milhões sem acesso a cinemas, de acordo com levantamento feito pela Ancine em 2024, que equivale a algo em torno de 40% da população. “O Brasil tem metade das salas do México, por exemplo, e o dobro da população”, disse Morais. E completou, argumentando a favor da necessidade da presença do governo na expansão do parque exibidor: “não há lugar no mundo com audiovisual forte em que não haja uma presença do Estado”.
Sobre a questão, os exibidores presentes no evento, ao menos os que se pronunciaram, foram unânimes em dizer que não se deve pensar em expansão sem antes garantir a manutenção do parque já existente.
A professora trouxe à luz uma outra questão: “Caramelo, filme que foi top 15 no ranking mundial, é ‘brasileiro’ mas não tem propriedade intelectual no Brasil”.
Ainda sobre o streaming, há também a antiga questão da falta de dados, evidenciada por Gabriel Pires (membro do Conselho Superior de Cinema), que mediou a mesa: “são filmes feitos com recursos públicos e que não se sabe o resultado”.
“É muito vira-latismo”, diz Juca Ferreira
A França, pra variar, apareceu em diversos momentos do evento, apesar de ter uma mesa específica para debater as políticas de proteção do país — e da Coreia do Sul.
O ex-ministro Juca Ferreira lembrou que o país europeu taxa em 25% as plataformas de streaming, enquanto o Brasil está tentando 4%: “é muito vira-latismo”, lamentou. E prosseguiu: “provavelmente vamos ter um resultado negativo. Isso reflete falta de política cultural. Então começa a pipocar problema. Vai chegar um dia que vai ser acessória a contribuição do poder público. Mas, enquanto não é, no caminho para se chegar à indústria, os recursos têm que ser equilibrados”.
Citada frequentemente como exemplo de proteção do produto interno, a França, como lembrou Paulo Alcoforado, “tem 5,6 mil salas para uma população de 70 milhões [uma proporção de 1 para 12,5 mil, enquanto, no Brasil, essa proporção é de 1 para 60 mil], num país cujo tamanho é semelhante ao do estado da Bahia. Só que, na França, a educação voltada para o cinema é exemplar”.
Nicolas Piccato, adido audiovisual da França no Brasil, trouxe a informação de que 2,72% do ingresso de um filme estrangeiro na França vão para a indústria nacional: “quem vai ver Avatar lá financia produções francesas. A Coreia do Sul tem a mesma taxa sobre os ingressos, e 3% do valor deles vão para a modernização e suporte às salas de exibição. Há também, na França, a estratégia de coprodução internacional, que representa cerca de 40% dos filmes feitos por lá. É necessário haver uma dinâmica entre profissionais, público e políticas públicas. Lá, o poder público sabe o valor do cinema”.
Foi mencionado nessa mesa, também, a força que a Coreia do Sul tem fora do país (os shows exibidos nos cinemas brasileiros são sucesso de público, bem como as novelas sul-coreanas tem muitos fãs por aqui), e como isso foi construído. Segundo Piccato, era um desejo dos governantes do país que eles fossem os principais exportadores de cultura do mundo, e fizeram um esforço conjunto de políticas públicas com indústrias privadas — as de Kpop são todas privadas — para que isso acontecesse. “E eu acho que o Brasil tem ese potencial”, opinou o profissional.
O profissional falou também uma frase que resume bem a força do cinema como experiência: “no cinema, o que acontece na tela é maior do que você. Em todas as outras telas, é menor”.


