PORTAL SOTERO PRETA | Day Sena e Iris de Oliveira dirigem doc “As travessias de Letieres Leite”
29/03/2026
A pandemia deixou um rastro de tristeza, desamparo, indignação e perdas. Sem dúvida um momento turbulento que atravessou jornadas, trajetórias, interrompeu projetos, sonhos e mais de 700 mil vidas. Nesse tempo sombrio, a Arte perdeu inúmeros de seus estandartes em todo país. Um deles, o maestro Leitieres Leite, que teve sua viagem por esse mundo terminada em 27 de outubro de 2021, no auge pandêmico.
Uma viajem que ainda prometia muitas ideias, projetos, parcerias, muita música, inovação e legados. Essa história é contada no doc “As travessias de Letieres Leite”, uma ideia do próprio Leitieres desde 2017, interrompida pela Covid 19. Mas a semente foi plantada e, em 2021, a produtora Janela do Mundo deu continuidade ao projeto, superando todos os revezes de uma pandemia e convidando duas cineastas com atuações reconhecidas no Audiovisual baiano para dirigir a obra: Day Sena e Iris de Oliveira, que carregam em suas trajetórias a interseção entre
o Audiovisual e a Música.
Leitieres e Nara Couto
O convite para eternizar no cinema o brilhantismo do maestro, arranjador, percussionista, saxofonista, educador e compositor baiano, Leitieres Leite, que expandiu o universo afro-brasileiro da música percussiva da Bahia, chegou para as cineastas em um momento marcante, especialmente para Day Sena: este é seu primeiro longa-metragem em uma carreira de quase 25 anos no Audiovisual.
A première nacional foi em junho de 2025, na 17ª edição do In-Edit Brasil – Festival internacional do documentário musical. Em seguida, o documentário foi exibido no 58º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. E, para encerrar o ano, participou da Seleção Oficial da 12ª Mostra de Cinema de Gostoso (RN).
Como forma de tributo e reverência a Letieres, a trilha sonora do filme foi construída a partir de diferentes gravações de sua obra, com produção musical de Alê Siqueira, parceiro de longa data do mestre e discípulo de seus ensinamentos.
Em vida, o maestro participou ativamente da construção do roteiro, escolha de personagens e da definição de caminhos do filme. A partir do olhar de Day Sena e Iris de Oliveira, a intenção nunca foi a de ser um filme definitivo sobre Leitieres. A obra se concentra em seus últimos registros e entrevistas, buscando dar continuidade ao movimento que ele próprio iniciou, como explica Day Sena:
Iris de Oliveira chegou à co-direção e também como Montadora do doc, com a missão de organizar a natural não linearidade dos relatos, traduzindo a oralidade do Maestro em roteiro.
“Existem inúmeras formas de narrar uma trajetória artística — e esse desafio se intensifica quando a narrativa se constrói na ausência física de quem a viveu. A arte continua, a vida continua. A longa, não linear e quase enciclopédica (rs) entrevista de Letieres tornou-se meu principal guia narrativo. Uma conversa rica, atravessada por detalhes, memórias e causos. A partir dela, buscamos construir a espinha dorsal do filme: ora com trechos mais extensos de fala, ora com passagens que se aproximam de uma reflexão poética sobre os processos de criação musical. Foi também por meio dessa entrevista que recriamos trajetos e estabelecemos conexões com outras obras já realizadas sobre o Maestro, sobre a música baiana e sobre a música brasileira. Em muitos momentos do processo, eu me esquecia de sua ausência física: o impulso recorrente era o de pedir orientação, esclarecer dúvidas, compartilhar trechos em busca de aprovação”, explica Iris.
Uma jornada transcendente para ambas cineastas, uma vez que toda a maestria de Leitieres era conhecida pela presença da espiritualidade, ancestralidade da música percussiva. Ao longo do filme, Letieres revisita a juventude em Salvador, o início autodidata e os caminhos que o levaram da prática intuitiva aos estudos na Europa. Também aborda suas contribuições como arranjador, produtor e diretor musical de grandes artistas, e, principalmente, sua pesquisa sobre a herança das matrizes africanas na música popular brasileira.
Mas para além disso, havia o Método Leitieres Leite, o que o levou ao mundo junto com a cultura e a musicalidade da Bahia. O Método Universo Percussivo Baiano (UPB) é fruto de mais de 30 anos de estudos sobre a presença sonora de elementos de matriz africana na sonoridade baiana. E sobre ele o filme também se debruça a partir de uma longa entrevista com o Maestro, que conta seus primeiros contatos com essa musicalidade desde sua infância em Salvador.
“Encarei a montagem como uma experiência quase espiritual. Ouvir suas últimas entrevistas, decidir o que dessas longas conversas permaneceria no filme, pedir licença — ainda que simbolicamente — para decupar, selecionar e cortar seus depoimentos. Nunca me emocionei tanto editando um material. Cada avanço, cada recuo na montagem parecia exigir um gesto de cuidado diante da memória do Maestro. Depois disso, nenhuma música soava da mesma maneira”, lembra Iris.
Para Sena, “é uma honra prestar essa homenagem ao saudoso Letieres Leite, uma personalidade que sempre fez questão de afirmar seu legado, construído ao longo de uma vida dedicada à aprimoração e divulgação da música baiana, suas referências ancestrais e legitimidade. Um músico que traduziu em sua trajetória a inquietação de pesquisa e execução. Uma mente e corpo que não paravam”, lembra Day.
“O filme convida o espectador a revisitar arquivos sob outras perspectivas, a descobrir camadas, acessar memórias e aprender. Seguimos aprendendo com Letieres — esse músico profundamente baiano, que também forjou sua musicalidade em diálogo com outros territórios. Cabe a esta travessia não apenas preservar suas palavras, mas também lançar ao mundo novas possibilidades de encontro com elas”, conclui Iris de Oliveira.
Abrindo o ano de 2026, chegou a vez dos soteropolitanos assistirem ao filme, no encerramento da 21ª edição do Panorama Internacional Coisa de Cinema, dia 1º de abril, no Cine Glauber Rocha. Haverá debate após a sessão:
18:00 – Sessão de encerramento
“As travessias de Letieres Leite”
Documentário / 84’ / 2026 / Cor / BA / Livre
Leitieres e Fabrício Mota
Day Sena: do primeiro longa ao primeiro curta
Diretora, coordenadora de Produção, Day tem formação técnica em Direção para TV pelo SENAC SP, graduação em Comunicação e pós em Marketing Estratégico e Docência do Ensino Superior.
Como proprietária e diretora da Salamandra Produções, já dirigiu mais de 80 programas de TV, sendo premiada 2 vezes no Festival de Gramado Cine Vídeo, e obras documentais. Atua na consultoria de projetos nacionais e internacionais, uma carreira extensa, reconhecida e em franca ascensão, pois vem aí seu primeiro Curta-Metragem.





